Estabelecer Limites Com As Crianças

Estabelecer Limites Com As Crianças
estabelecer limites

Ouvimos muitas vezes a expressão “as crianças precisam de mais limites”, ou “ele está a testar os limites”. Mas que limites são estes e do que estamos a falar, afinal?

As duas asas da águia

Antes de mais, sem dúvida que a permissividade não é um bom caminho e há que disciplinar as crianças. É muito importante darmos liberdade e autonomia, e também aplicarmos a contenção, quando é necessária. São as duas asas da águia – a liberdade e a contenção – como nos fala a Dra. Shefali Tsabary no seu livro Pais Conscientes. Gosto muito desta metáfora precisamente porque me lembra da importância de estabelecer limites, de ter equilíbrio para voar em segurança. A vida tem regras, o mundo tem regras e é importante preparar os nossos filhos para a realidade. Agora, há que fazê-lo de forma respeitosa, para que a criança acate o limite, mas também aprenda sobre dignidade.

Que tipo de limites existem? É o mesmo que regras?

Na Parentalidade Consciente não se costuma falar muito em regras pois estas têm uma conotação muito negativa, são associadas a castigos, punições e obrigações abstratas. O estabelecer de limites é aqui tido como um conceito mais interessante e possibilitador. Mas no fundo os dois termos referem-se ao mesmo – o tal “travão”que temos mesmo de meter aos miúdos, de vez em quando: a tal contenção.

Limites gerais

Por um lado temos os limites gerais – as regras da sociedade que nos rodeia, da escola, da associação desportiva, do restaurante, etc. Existe um modo de funcionar em sociedade e temos de nos adaptar a ele. No supermercado, temos de esperar a nossa vez de pagar na fila. No semáforo, quando está vermelho, temos de parar o carro. Limites gerais também se referem às regras da família, ou seja, ao modo de funcionar da nossa casa, as nossas rotinas, acordos e organização familiar.

Limites pessoais

Depois temos os limites pessoais. Para poder comunicar os nossos limites pessoais, há que primeiro tê-los presentes para nós mesmos. O que eu admito e não me incomoda? O que é que por outro lado, me tira do sério? Que coisas me fazem sentir que a minha integridade física ou psicológica está a ser atacada? Se tivermos um maior nível de autoconhecimento e autoconsciência, conseguiremos passar os nossos limites de forma verdadeira e eficaz. Trata-se de comunicar do interior para que os outros nos entendam melhor e mais facilmente respeitem a nossa posição ou pedido.

Antes de comunicarmos com os filhos, há que avaliar como nos sentimos, em cada momento, pensar no que é importante para nós naquela situação específica, tendo em conta as necessidades presentes:
“Hoje sinto-me muito cansada e ainda nem tenho jantar feito, vamos já diretos para casa.”
“Hoje tenho tempo e disposição, podemos ir ao parque brincar um pouco.”
“Hoje estou a sentir-me irritada porque não dormi bem, e ainda por cima arrumei a casa ontem, por favor brinquem com o castelo no vosso quarto.”
“Hoje sinto-me mais leve e bem-disposta, não me importo com o barulho e confusão, sim, hoje podem montar o castelo no meio da sala.”

Regras muito rígidas tendem a não resultar. Porque a vida é todos os dias diferente. Quando colocamos os limites comunicando do coração é muito mais fácil ter a cooperação das crianças. As crianças resistem muito aos “nãos” que são ditos da boca para fora sem pensar. Tente observar-se e verá a quantidade de vezes que faz isso. Isto leva-nos a falar de congruência.

Usar a congruência no estabelecer de limites

A congruência é extremamente importante para que a aplicação de limites funcione. É muito complicado impor limites ou regras com os quais não concordamos.

Imagine que é um vendedor de carros e tem de vender um carro que sabe que tem problemas no motor, por exemplo. Isto versus vender um carro que você adora, o qual acha que é um excelente veículo e o compraria você mesmo se pudesse. Que carro acha que tem mais facilidade em vender?

Usar a congruência é isto mesmo – é comunicar aquilo em acreditamos, que nos vem do coração, é ter um sentido forte em cada momento que temos de disciplinar os nossos filhos, uma intenção bem definida e presente, uma consciência do que estamos a fazer – ao contrário de agir e educar em piloto automático como tantas vezes acontece.

Quando colocamos limites aos filhos por causa da pressão social – por exemplo os olhares das avós, os comentários das sogras, ou as perguntas inconvenientes das tias – muitas vezes não estamos a ser congruentes. Estamos a colocar regras que não são nossas, são dos outros, ou da sociedade – e isso tende a gerar muita resistência nas crianças, muita teimosia e birras.

Os limites dos outros

Eu já senti em certas situações, alguma vergonha da maneira como escolho educar os meus filhos, e também pressão para exercer a parentalidade de uma determinada maneira. Posso garantir, quando isso acontece e acabo por tentar impor limites aos meus filhos que não são bem aquilo em que acredito, a coisa corre mesmo mal – posso dar o exemplo de todas as vezes que os obriguei a beijar os meus avós, nas visitas a casa deles. Eu sei que não devemos forçar os afetos e por isso não se deve obrigar a beijar quem quer que seja (podemos ensinar boas maneiras, claro, sem obrigar a beijar). Mas em relação aos meus avós, fazia-me muita confusão os miúdos não lhes darem beijinhos… Eu adoro os meus avós, e ficava tão incomodada por saber que, por exemplo, o meu avô ficava triste… que obriguei algumas vezes a esse cumprimento. Correu mesmo muito mal. Até que parei e pensei melhor, qual a minha intenção? O que quero ensinar? Eu não acredito em forçar afetos, por isso porque é que estou a fazer isso agora? Quais os meus limites? Quais os limites dos meus filhos? Afinal, como é que as crianças aprendem a ser bem educadas? Quando pensei a fundo nestas questões nunca mais obriguei os meus filhos a beijar os meus avós, e adivinhem, hoje em dia eles cumprimentam tanto os avós como outras pessoas, com muito mais naturalidade.

Limites e respeito

As crianças também têm os seus limites e apenas sentindo os seus limites respeitados elas podem aprender a respeitar então os limites dos outros, e a exigir respeito pelos seus. Isto pode ser muito importante num futuro em que sejam confrontados com álcool, drogas ou outros perigos. Há que respeitar os limites físicos (mais sobre isto aqui) ou psicológicos de qualquer pessoa, especialmente dos nossos filhos.

Reforço que respeitar limites não significa ser permissivo. Há uma diferença entre respeitar o “não quero arrumar o quarto agora”, e ir arrumar pela criança todas as vezes – o que não lhe ensina nada. Há formas de comunicar os limites da casa e da família (arrumação, neste caso), conciliando com os limites de cada membro da família. Em breve sairá uma publicação sobre acordos e acompanhamento, onde poderá tirar sugestões para estes casos.

Então como disciplino a criança respeitando os seus limites, mas também os meus, ou os da casa?

Não podemos permitir que a criança faça tudo o que quer, então como ser respeitoso e ainda assim colocar o limite quando necessário? Às vezes a insistência num assunto pode ser muita e exasperante para os pais!!

Imagine uma criança de 7 anos que se recusa a comer a carne.
Imagine uma criança de 4 anos caminhando com a mãe até casa, quer parar na casa de um amigo, e quando a mãe diz que têm de prosseguir até casa, a criança inicia uma birra no passeio.
Imagine uma mãe na sala a tentar falar com 2 amigas que estão de visita e a criança interrompe sistematicamente com barulho, perguntas e cantorias.

Todas estas situações são exemplos com que todos os pais se podem relacionar, e nós sabemos como as crianças podem ser insistentes, certo? Deixo algumas ideias práticas para aplicar em situações problemáticas, como as descritas acima, em que precisa de estabelecer um limite,

  • Aja sem falar. As ações são muito mais eficazes do que as palavras. Feche a boca e aja.
  • Apresente escolhas limitadas. (mais sobre isto aqui)
  • Faça um pedido razoável em 10 palavras ou menos. Espere a resposta da criança.
  • Use uma palavra apenas.
  • Use um sinal ou aviso.
  • Diga como se sente.
  • Dê informação
  • Descreva o que vê.

Espero ter oportunidade para falar melhor de cada uma destas opções, por hoje fico por aqui, espero que tenha ajudado e dado umas pistas na hora de colocar limites, qualquer dúvida, estou super à disposição para ajudar!!

Se achou interessante, partilhe este conteúdo com quem ache que está com dificuldades na hora de colocar limites nos filhos!

Até já!

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